A pisada espacial do jovem Anchieta

Há cinquenta anos o homem chegou à Lua. Costuma-se dizer a primeira vez que o homem pisou na Lua.

“Este é um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”.

Neil Armstrong, astronauta,
ao pisar na Lua.

Armstrong disse essa frase quando, na poeira acinzentada deixava a marca da sola de sua bota. Provavelmente, essa imagem ainda esta lá, estática, como agora em nossa retina.  

Esse tempo, passado a muito, dada a aceleração atual da vida cotidiana, ganhou especial relevância em razão de, nesses últimos anos, ter-se retomado inesperadamente um certo interesse em polarizações políticas similares às que, naquele tempo, impulsionaram a expedição lunar. Era o ano de 1969, auge da assim chamada Guerra Fria.

Mas o que isso tem a ver com nosso São José de Anchieta?

Era o ano de 1553, dia 13 de julho, há quase quinhentos anos atrás. Hoje, exatamente, estamos a quatrocentos e sessenta e seis anos e sete dias do momento no qual o jovem José de Anchieta pisava o solo do Brasil, na Bahia, colocando pela primeira vez os pés no continente da América, nas desejadas terras do Novo Mundo.

A pisada de Anchieta, diversamente da de Armstrong, não existe mais.

Em vez de estática, a pisada de Anchieta revelou-se dinâmica. A areia, carregada pelos ventos e pelas inevitáveis sobreposições terrestres de pés, encarregou-se da nova mistura que, no fim, a apagou. Contudo, não apenas por questões físicas, mas por uma imagem indelével: sua humanidade extraordinária.

Da pisada de Anchieta, brotaram milhões de passos. Milhões de passos para a Humanidade. Aquela Humanidade apontada por Armstrong, com os pés fincados na Lua.

Não que a pisada de Armstrong e seus companheiros também não tenha gerado milhões de passos, especialmente no campo da ciência natural.

Acontece que ela é reflexo, como a Lua o é. Reflexo do progresso da Humanidade. E nisso, os passos de José de Anchieta e de seus companheiros carregam em si, em alta potência, uma monumental evolução humana, um avanço espetacular daquela ciência que nos é primordial: a ciência de nossa Humanidade, fundada sobre a riqueza da nossa multiplicidade.

Esse conhecimento do humano, não como um mero objeto, externo a nós como a Lua ou um solo que se pisa, apenas. Mas, como uma ciência de si e, portanto, de nós, como próximos. Isto é, daquilo que nos é próprio: a nossa complexa humanidade. E foi isso, exatamente, o que nos permitiu chegar à Lua. O Humano, propriamente na sua condição, assim, tornou-se capaz de produzir tal ciência, ao ponto de pisarmos a Lua.

Em outras palavras, podemos seguramente intuir que na pisada estática de Armstrong está, como que justaposta, a pisada dinâmica de Anchieta.

Logo, sem a anterior pisada de Anchieta certamente a pisada de Armstrong não seria a mesma. Talvez nem a tivéssemos, sabe-se lá.

Se em ambos encontramos a coragem da aventura profunda, sobre o espaço atlântico ou rumo ao sideral, aquela jornada para além do encontrar um novo território, mecanicamente conquistado, o mais importante é que, também nós, pisemos Novos Mundos, como eles, ainda hoje.

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